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sábado, 4 de março de 2017

«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?» Parte 1



«O que fazer com este barco que chamamos de Buddhismo?»


Autor: Henrique Pires


Este é um artigo que escrevo graças ao incentivo do Ven. Gensho Sensei. Trata-se de uma reflexão sobre algo que muitas pessoas dizem hoje em dia: "Não preciso de buddhismo pra ser Buddha!". Ou, em outros termos: "Todas religiões aprisionam. Enquanto alguém segue ou preserva uma religião, não poderá se iluminar". Ou, ainda, elas explicam da seguinte maneira: "É preciso lançar fora o apego às religiões, portanto, não há porque falar de buddhismo". Agora, será que funciona mesmo assim? O que o próprio Buddha dizia a esse respeito?


>>Parte I: Aprendendo mais sobre o barco

A PARÁBOLA DO BARCO


Em algumas ocasiões, como no Alagaddupama Sutta (MN22), Buddha comparou seu Ensinamento e Disciplina a um barco. Algo que tem serventia e utilidade, mas que deve ser usado para um propósito claro; ao contrário de um mero enfeite ou objeto ao qual nos apegamos. E também no Sutra do Diamante (Vajracchedika-prajñāpāramitā-sūtra), ele retoma esse mesmo exemplo e diz que, em algum momento, precisamos nos desapegar até mesmo do barco do Dharma. Agora, o que isso significaria? Jogar tudo fora de uma vez?


A SEQUÊNCIA DA PRÁTICA


Calma, vamos devagar. Aryadeva, importante filósofo buddhista e discípulo de Nagarjuna, certa vez explicou essa lógica dizendo: "a princípio se aprende a reduzir e cessar o que não é benéfico; mais adiante se elimina a noção de individualidade; e, ao fim, deve-se transcender todas as visões (limitantes). Com essa compreensão, alguém pode se tornar hábil no que é benfazejo." 『先遮 止非福,中間破除我,後斷一切見,若知為善巧』


Isto é, a preocupação do praticante não é jogar fora o barco dos ensinamentos. A princípio, sua preocupação é deitar fora obstruções inúteis e todo tipo de negatividade. No meio do caminho, sua atenção se volta a lidar com ilusões ferrenhas como o senso de apego ao ego. Apenas ao fim, quando se fala de "transcender todas as visões (limitantes)", poder-se-ia enfatizar a importância de transcender a fixação no tal barco. E por quê? Porque até lá ele já teria cumprido bem sua função: já teríamos atravessado o mar do sofrimento rumo à Completa Liberação; e, como diz mestre Aryadeva, já teríamos "nos tornado hábeis no que é benfazejo".


UMA HISTÓRIA DA ÉPOCA DE BUDDHA


Para ilustrar possíveis enganos a esse respeito, há uma passagem no Itivuttaka (it 22) onde Buddha repreende os monges dizendo: "Não temam as ações meritórias!". Nessa ocasião, ele exorta os monges a cultivar o que é bom sem medo. Muitos, provavelmente, estavam se tornando apáticos ou inertes por receio de "se apegar às boas ações". Tal é uma visão que ainda hoje se repete: alguns pensam que devemos jogar tudo fora de qualquer jeito. Como consequência, quem assim se equivoca corre o risco de acabar não praticando nada.


O Buddha, ao perceber essa má compreensão dos seus alunos, ofereceu então um discurso sobre a importância de se cultivar as práticas do Dharma. Nesse momento, ele colocou especial ênfase no cultivo da generosidade, do autocontrole e da amorosidade. Por meio desse exemplo podemos ver que o desapego, embora importante, deve vir acompanhado pela diligência e pelo cuidado: continuamos prezando o cultivo sistemático daquilo que deve ser cultivado.


MAS PRECISA DE UMA RELIGIÃO/TRADIÇÃO PARA ISSO?


"Ok. Entendo a relevância de cultivar boas coisas. Mas para quê seguir um sistema religioso se meu objetivo é a Iluminação? Isso não seria apenas se limitar?", poderia seguir a linha de questionamento.


Uma possível resposta seria: "antes de limitar, seria delimitar; ou seja, não usamos a tradição para sufocar, mas para enfocar". E foco é importante. Se alguém tem uma meta tão elevada quanto a Iluminação, seguramente precisa de algum foco.


Ao comparar seu sistema de prática espiritual com um barco, Buddha também deixou claro que seu Ensinamento e Disciplina possui peculiaridades: há uma lógica própria, um conjunto coerente de informações, um modo apropriado de utilizá-lo para chegar ao objetivo final. Ou seja, há uma delimitação. Quando queremos fazer a travessia, não podemos pilotar vários barcos diferentes ao mesmo tempo - um pé em um, uma mão em outro. Ademais, veículos diferentes funcionam de maneiras distintas. De modo que se aglomerarmos aleatoriamente as peças próprias dos mais diferentes veículos, o resultado final poderia ser bem menos efetivo - senão desastroso.


Por isso, quando dizemos que o Buddhismo é comparado a um barco que conduz da (1) margem do sofrimento para (2) a margem da libertação, ato contínuo devemos lembrar que navegar com este corpo de ensinos demanda certa dose de comprometimento; ou seja, certa dose de foco: "vou me concentrar nessa ferramenta para extrair dela o melhor uso possível". Tal seria, de maneira básica, a proposta. Falamos que a tradição buddhista delimita o caminho e apresenta um instrumental próprio; não para limitar o praticante, mas para permitir uma jornada clara, factível, e bem amparada até o fim.


>>Parte II: as maneiras errôneas de lidar com o barco


CINCO TIPOS DE ENGANO


Aproveitando a parábola do barco para explicar nossa relação com o Buddhismo, podemos descrever alguns modos errôneos - muito comuns! - de lidar este veículo. Lembrem-se: nosso objetivo mais básico, segundo o Buddha, resume-se a partir dessa «margem do samsara» (i.e., do sofrimento baseado na cobiça, ira e ignorância) e avançar até atingir a «margem do nirvana» (i.e. a paz perfeita e definitiva).



1) Primeiro engano: nunca começar a viagem


Algumas pessoas até desejam "fazer essa nobre travessia" e em algum momento obtém um barco (um sistema ou método de prática buddhista). No entanto, pode ocorrer que elas se encantem demasiado com tal veículo, ficando ali abraçadas com ele, admirando-o, sem jamais sequer colocá-lo na água. Se isso acontece, o veículo perde sua função e ninguém sai do lugar. Esse é o primeiro tipo de engano, típico de quem se encanta com os símbolos, rituais, e com a beleza aparente da tradição, mas que nunca se dispõe a cultivar a si mesmo.


2) Segundo engano: querer fazer tudo sozinho


Aqui, alguém deseja atravessar, mas pensa: "Vejo que existem tolos que permanecem agarrados aos barcos (religiões/tradições) nesta margem, eles não estão completando a travessia. Não estão saindo do lugar! Logo, penso eu, o barco deve ser o problema!", e assim pensando ele se lança no rio sem barco - nem método nem nada - e, não tendo como fazer frente à correnteza, acaba arrastado daqui pra lá. Mais cedo ou mais tarde, ele é lançado de volta ou se afoga. Não chega ao objetivo. Essa analogia se refere às pessoas que não se dispõem a aprender com ninguém; elas não estudam nenhum sistema profundamente, não querem se agarrar a nada, mas se lançam à travessia com ares de arrogância: sem professores, sem instruções, sem métodos, sem ferramentas... Desconhecendo a magnitude da jornada, dizem "EU ME BASTO!". E tal seria o segundo tipo de engano mais comum.


3) Terceiro engano: esquecer as prioridades da viagem


Neste terceiro tipo se encontra alguém que compreendeu: "O barco não serve para ficar parado, devo utilizá-lo para entrar na correnteza". Mas, essa pessoa, vai criando um vínculo de excessiva afinidade com seu veículo conforme avança. Ela logo se esquece do objetivo final de "descer na outra margem", e fica encantada com sua capacidade de navegar. Perde tempo comparando a si mesma com os demais navegantes, tentando convencer a si e aos demais que o seu veículo é o mais eficiente. Assim, tal pessoa bem que poderia dar infinitas voltas com aquele barco ou, senão, simplesmente se negaria a descer dele. Talvez, ela até mesmo o carregasse nas costas ao atingir a outra margem - sem nunca se libertar. E este é o terceiro tipo de engano, comum aos que se aferram demasiado à sua escola, ao seu professor, ou aos métodos e ensinamentos que receberam, promovendo disputas desnecessárias, etc..


4) Terceiro engano: confundir uma etapa com o ponto final


Este tipo é interessante. Aqui, uma pessoa poderia ter feito sua jornada até certo ponto, quando ela se depara com uma grande pedra ou banco de areia. Então ela pensa: "Eu cheguei! Eu já cheguei! Completei minha travessia e estou livre", e assim pensando ela se desfaz do barco ou simplesmente para de utilizá-lo. Por comparação, isso é o que acontece quando fazemos pequenos progressos e já acreditamos ter alcançado a realização última: talvez sejamos capazes de meditar bem, talvez estejamos nos sentindo mais felizes e serenos, talvez tenhamos cultivado uma boa disciplina ética, talvez tenhamos estudado vários ensinamentos, talvez as condições externas estejam confortáveis, etc. Mas nenhum desses fatores básicos, deve-se dizer, corresponde ainda à liberação final (ao nirvana). Se nos acomodamos e deixamos de praticar, caímos então noutro dos enganos mais comuns.


5) Quinto engano: esquecer-se das outras pessoas


O último é um dos mais inusitados. Nesse exemplo, alguém reconhece a necessidade do barco, utiliza-o, abandona-o direitinho ao chegar na outra margem e, ato contínuo, o que faz? Destrói o barco. Ao destruí-lo, grita também aos companheiros: "Esse barco é uma prisão! Vamos! Destruam os barcos! Abandonem os barcos! Vocês não precisam de barcos! Eu me sinto muito melhor após libertar-me dele!", e assim dizendo ele destrói o veículo ao invés de oferecê-lo a outro que talvez o necessitasse. E seus companheiros de travessia, cada qual em uma etapa, começam a quebrar barcos ou abandoná-los: os que estão na primeira margem os destroem com porretes e se lançam na água, os que estão iniciando a travessia saltam diretamente na correnteza, os que se acham sobre rochas e bancos de areia despedaçam o veículo, e aqueles que estavam quase chegando afundam perto da outra margem... E assim todos perecem. Este é o quinto, e mais assustador, tipo de engano. Ao longo da história, mesmo avançados praticantes buddhistas acabaram gerando situação similar: embora suas mentes estivessem apaziguadas, muitos deles, sem a devida compreensão, esqueceram-se de cuidar dos seus amigos iniciantes. Alguns desprezaram regras de disciplina ou práticas mais básicas e acabaram influenciando, sem perceber, iniciantes que inadvertidamente acataram os mesmos procedimentos. Isso seria o contrário do que Aryadeva, citado mais acima, descrevia como "tornar-se hábil no que é benfazejo (para si e para outros)". Trata-se de um equívoco a ser evitado.

Continua